Perdoar para ser perdoado

É fácil condenar os outros por suas 
falhas, difícil é reconhecer os seus 
próprios erros.

    Mt 6:12 – Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. O pecado é uma das barreiras que nos impedem de alcançar as bênçãos divinas (Mq 3:4). Portanto, uma das condições impostas para o homem que quer obter resposta dos céus é alcançar o perdão para as suas falhas. Só que para isso existe uma condição ainda maior: saber perdoar. Pois somente serão perdoados por Deus aqueles que perdoarem os seus ofensores (Mt 6:15). Pedir perdão a Deus sem estar disposto a perdoar aquele que te ofende ou te deve, ou não pedir perdão ao próximo quando você é o culpado, é hipocrisia! Porém, aquele que pede perdão deve estar também disposto a abandonar o pecado e ainda a perdoar aqueles que pecaram contra ele, mesmo que esses não lhe tenham pedido perdão.

Ser perdoado e não saber
perdoar é hipocrisia, e o
castigo é inevitável

    Isso me faz lembrar daquela famosa parábola[1] contada por Jesus sobre o credor[2]
incompassivo[3] (Mt 18:23-34): Um cidadão, que certamente deveria ser um empresário da época, devia 10 mil talentos a um rei. Provavelmente essa dívida, que segundo os cálculos de alguns estudiosos, girava por volta de, no mínimo, 20 milhões de reais, já tinha algum tempo e ele nunca nem sequer se preocupou em pelos menos dar satisfação aos contadores do palácio. Porém, vossa majestade, num belo dia resolveu dar uma olhadinha no “caderninho dos pendurados”, viu ali aquela dívida que não era nada pequena e resolveu mandar seus mensageiros “lembrarem” o rapazinho “esquecido”. E, como já era de se esperar, ele não tinha como pagar tudo aquilo, então ao rei pareceu justo aplicar-lhe uma lei que obrigava o devedor e a sua família a se tornarem escravos estando sob o domínio do credor pelo tempo determinado para pagar a dívida – E quantas pessoas nos dias de hoje não são “escravas” de instituições financeiras como por exemplo: bancos, lojas,  financiadoras e agiotas por não terem prudência ao administrar sua renda? -. Era uma pena muito pesada, e somente o que sobrava ao réu era implorar, apelando pelo perdão, e foi isso o que ele fez até alcançar misericórdia do majestoso que não suportando ouvir aquela choradeira toda, desistiu não só de escravizá-los, mas também perdoou-lhe toda a dívida. E agora, todo contente por poder respirar mais aliviado, o devedor perdoado segue de volta  para a sua casa quando derrepente encontra pelo caminho um pobre homem que, provavelmente por suas dificuldades financeiras, não tinha condições de lhe pagar uma modesta dívida de 100 dinheiros (100 denários[4] em algumas versões bíblicas: por volta de no máximo 5 mil reais hoje), e imagina o que foi que ele fez depois de ter aprendido aquela maravilhosa lição sobre perdão: começou a estrangulá-lo e mandou que o prendessem até que pagasse a dívida. Porém, outras pessoas, vendo isso, contaram tudo ao rei que mandou chamar de volta o sujeitinho ganancioso, lhe passou um sermão sobre a sua falta de misericórdia, chamou os verdugos[5] e mandou que lhe trancassem na prisão até que ele pagasse toda a dívida.

A falta de capacidade para
perdoar é uma doença que
endurece o coração e o destrói

    Será que não estamos agindo hipocritamente como esse devedor? Será que temos por Deus e  pelo próximo o mesmo amor que esperamos receber deles? Como seres humanos, de uma forma natural, temos a tendência de sentirmos e lamentarmos mais apenas pelas nossas próprias dores do que pelas dores dos outros, e até quando estamos errados temos sempre uma auto-justificação prontinha para nos defendermos; porém, o mais difícil é entender os erros alheios. O devedor dessa parábola tinha uma dívida que não era nada pequena; mas, certamente, aos seus olhos, isso não deveria ser tão grave assim, afinal de contas, ele deveria ter uma “boa razão” que em seu subconsciente lhe desse motivos para pensar que não estivesse tão errado assim a ponto de não ter ido se explicar com seu credor antes que ele fosse lhe cobrar. Quantas vezes o ser humano não se acomoda com os seus pecados diante de Deus contando com a sua infinita misericórdia? Porém aí ele se esquece de uma coisa muito importante: Deus é misericordioso, mas também é justo; e em sua justiça, por mais que ame o pecador, Ele não tolera o pecado (Nm 14:18). Então, quando se dá conta disso, ele se prostra diante do Senhor, chora, lamenta, se humilha e demonstra arrependimento até alcançar o perdão; mas será que isso significa que ele está disposto a abandonar o pecado (Pr 28:13)? E é a mesma coisa quando o seu erro é contra o próximo: ele chora, lamenta, se humilha e demonstra arrependimento até alcançar o perdão; mas será que está mesmo disposto a não errar mais (Mt 23:28)?

Pedir perdão é fácil, o
difícil é conseguir perdoar

    A sinceridade de um servo de Deus é conhecida não quando ele precisa pedir perdão, mas sim quando ele precisa perdoar alguém. O rei dessa parábola, juntamente com as pessoas ao seu lado naquela ocasião, certamente ficaram bastante comovidos diante da súplica daquele homem e acreditaram na sinceridade de seu emocionante pedido de perdão; porém, a sua verdadeira personalidade foi revelada depois: fora da presença do rei. Mas o rei ficou sabendo e aplicou-lhe a pena com todo o rigor da lei. Assim, da mesma forma, o nosso Rei Celestial que tudo sabe e tudo vê, não permite ao pecador que não se arrepende verdadeiramente escapar impune da justiça divina que é o tormento do fogo eterno, ou simplesmente, o inferno. Pois é para lá que irão todos os rancorosos, maldizentes, devassos[6], idólatras, adúlteros, efeminados[7], ladrões, avarentos[8], alcoólatras, incrédulos, homicidas, feiticeiros, mentirosos e, entre muitos outros também, os amantes do pecado, conforme diz a Palavra de Deus (Mt 5:22[9] [10] [11]; Tg 3:6; 1ª Co 6:10; Ap 21:8; 22:15). Já imaginou perder a sua salvação simplesmente por não perdoar alguém? Isso parece ser exagero? Pois a Bíblia é bem clara quando diz que o caminho e a porta da vida – da vida eterna – são estreitos e poucos são os que a encontrarão (Mt 7:13,14). Diante de tudo isso, como fazer para agradar a Deus então? A resposta é bem simples: devemos tratar o próximo da mesma maneira que gostaríamos de ser tratados por ele (Mt 7:12). A tendência natural do ser humano quando, por exemplo, se depara diante da notícia de que alguém cometeu um crime ou um grave erro que venha a resultar em algum tipo de prejuízo é condenar, desejar o mal e, se possível, praticar “justiça” com as próprias mãos. Portanto, para essas pessoas que sempre se deixam levar pelo sentimento de revolta, só tenho uma pergunta a fazer: nenhum ser humano é perfeito, e se fosse você ou alguém que você ama que tivesse cometido esse erro? Também não gostaria de ser perdoado ou que perdoassem aquele que você não quer ver sofrer? Isso é muito mais sério do que parece, porque só alcançarão o perdão divino aqueles que, além de se arrependerem sinceramente de seus pecados, também perdoarem verdadeiramente o seu próximo independentemente da gravidade da ofensa que dele tenha recebido (Mt 18:21,22). Somente alguém que ora com um coração arrependido e disposto a perdoar pode alcançar seus objetivos diante de Deus.




[1]Parábola: Originária do grego parabole, significa narrativa curta ou apólogo, muitas vezes erroneamente definida também como fábula. Sua característica é ser protagonizada por seres humanos e possuir sempre uma razão moral que pode ser tanto implícita como explícita. Ao longo dos tempos vem sendo utilizada para ilustrar lições de ética por vias simbólicas ou indiretas. Narração figurativa na qual, por meio de comparação, o conjunto dos elementos evoca outras realidades, tanto fantásticas, quando reais. Eram as histórias geralmente extraídas da vida cotidiana utilizadas por Jesus Cristo para ensinar aos seus discípulos. Segundo Marcos 4:11-12, eram utilizadas por Jesus para que somente seus discípulos as entendessem plenamente. Este gênero já era utilizado por muitos dos antigos profetas.
[2]Credor: Pessoa a quem se deve dinheiro (Mt 18:23-34).
[3]Incompassivo: Quem não tem compaixão.
[4]Denário: (denarius, em latim, plural denarii). Uma pequena moeda de prata que era a de maior circulação no Império Romano. Correspondia ao salário diário de um trabalhador. Mesmo após a sua extinção, o denário continuou a servir de unidade de conta no Império Romano. Posteriormente, diversos países adotaram o termo “denário” (ou uma variação) para designar as suas moedas nacionais, como o denier francês e o dinar, usado em países árabes. A própria palavra dinheiro, em português (e dinero, em espanhol), vem do latim denarius.
[5]Verdugo: Carrasco, algoz ou verdugo são nomes dados ao funcionário encarregado do castigo ou da execução de uma sentença de pena de morte. No caso do enforcamento, por exemplo, é o carrasco quem empurra o condenado para que ele morra pendurado. A figura do carrasco encapuzado tomou ares míticos e assustadores durante a Idade Média, onde as execuções aconteciam com frequência.
[6]Devasso: Depravado, indecente, pervertido, imoral, degenerado, corrompido, corrupto. Aquele que abusa da liberdade.
[7]Efeminado: Caracterizado por qualidades mais próprias a mulheres do que a homens. Que tem modos de mulher. Ex­cessivamente delicado; mole. Homossexual.
[8]Avarento: Que tem avareza. Que não dá; parco. Que guarda ciosamente; ciumento, zeloso. Mesquinho, miserável. Estéril, sáfaro. Indivíduo sordidamente apegado ao dinheiro; sovina, harpagão.
[9]Encolerizar: Enfurecer, zangar, irritar.
[10]Raca: Palavra aramaica que quer dizer: “Você não presta!”
[11]Sinédrio: O mais alto tribunal religioso dos judeus, do qual faziam parte os sumos sacerdotes (o atual e os anteriores), chefes religiosos (anciãos) e professores da Lei. Tinha 71 membros, incluindo o presidente (Jo 11:47).

Jonas M. Olímpio

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